
Quando fechava os olhos e imaginava a minha vida, via-me a caminhar numa praia à noite. Caminhava com dificuldade... quase de joelhos a arrastar-me. Caminhava com medo... não via bem a areia e estava certa de que ela estava cheia de cacos de garrafas antigas deixadas por toda a gente. Mesmo por quem gostava de mim. Era dificil e penoso. Dificil de esperar que um espinho me rasgasse novamente a pele... Penoso por saber que não conseguia ficar imune de todos esses espinhos. Sentia-me abandonada, sozinha... pior ainda, sentia que os meus anjos e guias me estavam sempre a preparar mais uma das deles... mais uma prova, mais um sofrimento... como se a razão da existência deles fosse apenas e somente infligir-me mal. Queria ir para a floresta, fugir... Queria ver as estrelas, sentir-me feliz por estar viva... Queria sentir a água a refrescar-me o corpo... Mas tudo isso me afligia! Tinha medo de entrar na água! Também ela escondia os cacos maldosos deixados pelos meus guias. Em vez de me refrescar, apenas conseguia sentir-me mais assustada. Fechava-me numa tenda, sozinha. Pelo menos ali ninguém me fazia mal. Ali tinha o meu espaço. Ali tinha o meu tempo para curar as minhas feridas. De vez em quando saia... Mas acabava por descobrir que era mais uma experiência dolorosa. As estrelas nunca sorriam, a escuridão continuava a esconder os espinhos cravados na areia de uma suposta praia paradisiaca...
Voltar a confiar foi das tarefas mais horriveis pelas quais eu passei... Não posso dizer que já confio cegamente... Mas a minha estrada agora é outra... É a Minha estrada! Que não passa à beira mar. Ela passa por entre altas árvores que, embora imponentes, balançam ao sabor do vento. Embora seja de noite, eu caminho tranquila. Sei que vou no meu caminho, num caminho onde sou protegida e acarinhada. Sinto ao longe a brisa do mar e sorrio... Sempre gostei do mar salgado e agitado... As praias de mares calmos e limpidos nunca fizeram parte da minha essência. Está frio, tenho medo, por vezes caio, mas o caminho é doce e as árvores da minha Serra são eternas.
1 comentário:
É de facto uma pena que as pessoas nunca, ou dificilmente, entendam aquilo que queres dizer... Quase todos idealizam o seu caminho por paisagens magnificas e cenários tranquilos. Depois, muitas vezes, são desiludidos. Também eu, como sabes, aprendi (será?) a seguir por um caminho confiando que, por mais dificuldades que apresente, será sempre o melhor caminho porque é o Meu caminho... o Medo nunca foi o caminho para ninguém e se uma pessoa se retrair acaba por não viver de todo, e não é isso que viemos cá fazer... Há portanto que levar Luz onde a Escuridão gosta de se instalar. Assim que se ilumina algo, as coisas parecem tão obvias, não é? ;)
Beijinhos grandes
P.S. - Não, não vi o gigante... aquela cidade é enorme e só lá fui uma tarde :) E deves saber tão bem como eu que Brugge é muito mais o tipo de cidade que gostamos!...
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