03 dezembro 2009

Quando alguém discorda de nós, não devemos lançar-nos logo numa discussão. Esse nosso entusiasmo mal dirigido é um desperdício de energia com que não conseguiremos mudar nada. Quanto muito, podemos conseguir não sair vencidos.
Só devemos falar se a outra pessoa nos quiser escutar. Se não, será melhor ficarmos calados, sem dizer nada. Falar, quando não nos ouvem, é arranjar sarilhos. É atear mais o fogo de um incêndio, acrescentar água a uma cheia. É alimentar os excessos.

Ser mensageiro entre duas facções em oposição é sempre uma tarefa muito difícil. No diálogo entre elas há sempre tendência para exagerar críticas ou elogios. E, como sem verdade nunca existe confiança, os mensageiros correm sempre perigo. Uma oposição só pode ser resolvida quando se fala com verdade e sem exageros.

E, em vez de perdemos tempo a planear como iremos argumentar ou agir, devemos simplesmente tentar entender bem a situação e quem é o outro. Observar o seu caracter. Mas não só com os sentidos nem com base apenas no nosso conhecimento. Só se nos conseguirmos esvaziar de todas as essas faculdades conseguiremos observar convenientemente, com todo o nosso ser.


Estaremos sempre mais perto do sucesso se não agirmos ou se conseguirmos agir sem ser notados. Se nos quiserem escutar, falaremos. Se não, ficamos silenciosos e entre os outros. Porque não há nada que devamos ser senão um entre outros. Devemos estar no meio dos homens sem os perturbar, sem entrar em conflito com a imagem ideal que eles têm de si próprios. Não devemos tentar impor as nossas ideias à força.
A virtude e a fama fazem os homens lutarem entre si. A virtude de uns fere os outros porque acaba por ser entendida como uma demonstração das suas falhas. E aquele que fere os outros acabará sempre, por sua vez, por ser ferido. Se não nos expusermos demasiado, não teremos inimigos nem seremos atingidos.
Tudo deve ocorrer naturalmente. Embora isso não seja fácil. Porque temos tendência a agir com base no nosso conhecimento, sempre imperfeito, em vez de agirmos com base na consciência plena da nossa ignorância. E porque, além disso, nos pode faltar a paciência para esperar. E leva-se sempre um longo tempo a fazer uma coisa como deve ser.

Mas não se consegue parar uma carruagem apenas com um braço levantado. E, uma vez feito algo de errado, pode ser muito tarde para o corrigir.

Avançar com segurança é como caminhar sentado.
Ou andar sem tocar no chão.
É voar sem ter asas.

E fácil não deixar rasto quando se está parado, mas é difícil andar sem tocar no chão. É fácil entender a sabedoria dos que sabem, mas muito mais difícil entender a dos que não sabem.

Uma janela é só um buraco numa parede. Mas, por ela existir, um quarto pode-se encher de luz. Se nos conseguirmos esvaziar de todas as nossas faculdades e sentidos, deixaremos também passar a luz. E será através dessa nossa influência secreta e subtil que os outros poderão ser transformados.
Chuang Tse

3 comentários:

Luís disse...

Estas reflexões são extraordinárias. São um espelho da tradição oriental. Esta conduz-nos ao EU e à nossa responsabilidade individual para com os outros e ao mundo que nos rodeia. Já a tradição Ocidental está mais direccionada para as Regras a que temos que obedecer, seja ao socialmente correcto ou ao que parece bem. É uma diferença de atitude muito subtil mas que modifica completamente a abertura do pensamento oriental contra uma espécie de rigidez na cultura ocidental.

Unknown disse...

É verdade! Concordo contigo! E às vezes faz-nos tanta falta a cultura oriental!

Unknown disse...

... ainda em reflexão...